Projecto

Trajectórias Residenciais e Metropolização:
continuidades e mudanças na Área Metropolitana de Lisboa

Em Portugal, o processo de urbanização, que tem início na década de 50, atinge o seu auge na década seguinte, entrando pelos “conturbados” anos 70. É a época dos HLM, das New Towns, dos “30 gloriosos” que viriam revolucionar a habitação das massas. Portugal também teve os seus grandes conjuntos de iniciativa pública, poucos. A maioria era privada. Era nas periferias ou nos limites periféricos da cidade que se construíam os “novos bairros”, de habitação colectiva ou de moradias, frequentemente clandestinas.

Trajectórias

© AFCML

A periferização é pois, aqui e em qualquer parte de mundo, uma inevitabilidade da constituição da própria metrópole, a condição sine qua non à expansão territorial e humana que a caracteriza. Em simultâneo com a expansão da “cidade nova” surgem, entre as elites, as primeiras críticas a este modelo. Mais do que a crítica a um determinado modelo urbanístico e habitacional, está em causa a crítica a uma certa visão do mundo: a visão moderna do mundo ou a visão de uma certa fase da Modernidade, a Alta Modernidade, da qual resultou, entre muitas outras “coisas”, o urbanismo moderno.
Doravante, e num lento processo de “contágio” social que se vai expandido ao ritmo das transformações sócio-culturais da Modernidade Tardia (MT), a palavra periferia ganha um tom valorativo, leia-se depreciativo, mais do que designativo. Hoje, o enaltecimento da urbanidade por oposição à suburbanidade é o referencial dominante entre quem pensa, faz e gere a cidade. A absolutização deste referencial, ao dispensar análises mais ligadas às práticas e subjectividades individuais, alimenta um discurso em torno das lógicas de ocupação do espaço metropolitano que se esgota em 2 argumentos, entendidos como constrangimentos estruturais impostos pela oferta: i) as pessoas terão sido forçadas a sair da cidade; ii) e nela não residem, nomeadamente no centro, “apenas” porque não podem.
O projecto tem como objectivo geral o estudo das trajectórias residenciais dos habitantes da Área Metropolitana de Lisboa (AML), nascidos entre 1935-1985. Porém, e dada a necessidade de aprofundar o conhecimento sobre as transformações em curso que poderão estar na base de uma reestruturação das lógicas da metropolização contemporânea, privilegiar-se-á a análise das gerações mais novas: indivíduos nascidos entre 1965-1985 e cuja entrada na vida adulta e provável autonomia habitacional terá ocorrido já depois da adesão à UE, período de emergência dos principais indicadores de modernidade.

Trajectórias

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São 3 as hipóteses de partida deste projecto:

i) a maioria dos indivíduos tende a protagonizar trajectórias residenciais reprodutivas (mudança para a mesma zona ou do cônjuge, ou, quando muito, para zonas similares); tal reprodução é um garante de continuidade de uma familiaridade/identidade espacial valorizada(s) e amortece os impactos disruptivos, práticos e emocionais, da mudança de casa;
ii) a maioria dos indivíduos tem um referencial de “cidade nova”, repudiando e até desconhecendo os centros históricos, e, portanto, tende a procurar zonas condizentes;
iii) o crescimento de trajectórias descontínuas – em especial as que tendem a inverter a periferização, elegendo os centros históricos como destino – tem vindo a surgir de forma espontânea e não maioritária, em especial: entre as gerações mais novas como resultado da sua crescente adesão a valores e estilos de vida característicos da MT, da individualização à esteticização, passando pelo cosmopolitismo.

Em termos metodológicos, o projecto segue 2 procedimentos. Um extensivo, através de um inquérito representativo à população da AML, nascida entre 1935-1985, aplicado a uma amostra estratificada não proporcional (Neyman) que: a) assegura a comparabilidade inter-geracional; b) garante a representatividade estatística da geração mais nova. Os objectivos específicos deste procedimento são: i) tipificação das trajectórias em termos geográficos (ex. Periferia-Lisboa; outra Região-Lisboa-Periferia; periferia-periferia); ii) identificação de perfis sociológicos para as trajectórias-tipo mais relevantes, do ponto de vista da sua representatividade estatística ou do seu carácter emergente. O 2º procedimento, intensivo, centra-se no aprofundamento qualitativo dos perfis previamente encontrados, apenas nos indivíduos nascidos entre 1965-1985. Neste aprofundamento, dar-se-á especial destaque à exploração dos factores que estão na base da constituição dos ditos perfis, em particular: aos aspectos funcionais, relacionais e identitários que caracterizam a relação que os indivíduos estabelecem com os seus lugares de residência. Para tal serão realizadas entrevistas a 100 indivíduos distribuídos proporcionalmente em função da distribuição dos respectivos perfis na amostra. Estas far-se-ão acompanhar de uma ficha de registo do respectivo modelo habitacional e urbanístico.